22/10/10
Dicionário polÃtico: seis verbetes
Depois de tanto tempo, uma arte se esboça, e são necessários milhares de séculos para aperfeiçoá-la.
(PolÃtica, ‘Dicionário Filosófico’, Voltaire)
1. Povo
Quatro amigos conversam em uma cafeteria do Boulevard. São intelectuais: um historiador, um jurista, um sociólogo e um filósofo polÃtico. A discussão entre eles é mais acalorada que a fumaça dos cafés escapando das xÃcaras. A certa altura, o jurista toma a palavra:
— É como digo, a Constituição determina que todo o poder emana do povo. Então, eu pergunto: o que é o povo? E respondo: o povo não é mais que uma noção vaga. É preciso determiná-la!
— E quem irá determiná-la? O Supremo Tribunal Federal? – pergunta o historiador.
— Também ele, por que não? Aliás, sobretudo ele!
— Isso quer dizer que continuaremos no empate… – sorri o historiador.
— Se não for o Supremo, quem será? – insiste o jurista. Então, o filósofo intervém:
— Na verdade, é preciso definir o conceito. Investigá-lo, firmá-lo, persegui-lo. O que é o povo? O povo, eu digo, é uma abstração, um conceito da filosofia polÃtica. O que temos aà fora é uma massa de indivÃduos, cada qual vivendo sua vida bem ou mal. O povo? É preciso perguntar à Razão!
— Então, você nega a história! – reage, com espanto, o jurista. O que me diz de Atenas? Do Conselho dos 500? E da Assembléia de todos os cidadãos, iguais perante a lei e com igual direito à palavra? Isso é a Razão ou é o povo na História?
— O que a História revela não é aparente! – atalha o historiador. O povo de Atenas foi resultado das reformas de ClÃstenes. O povo fez a Revolução Francesa? Até certo ponto, talvez… Mas foi Napoleão III quem começou a democracia na França! E o caso alemão? Foi Bismarck, e não o povo, quem implantou o regime liberal!
— Então, vocês querem dizer que o povo é obra de filósofos ou governantes?!
— Eu quis dizer o que você próprio sugeriu agora há pouco: se o povo é uma noção vaga e precisamos determiná-la, devemos fazer isso racionalmente. – defende-se o filósofo.
— Quero dizer que o povo existe, mas o seu conteúdo deve ser apreendido na História. O povo de Atenas não é o mesmo de que fala Rousseau e este, por sua vez, não é o povo para o qual se apela nos guias eleitorais! – acrescenta o historiador.
— Afinal, de que povo nós falamos? – indaga o jurista.
Os demais trocam sorrisos. Os quatro pagam a conta e saem. Passam por amigos que batem papo na praça de alimentação, casais de namorados que saem do cinema, crianças que brincam no Game Station, homens e mulheres que param diante das vitrinas. Na calçada, um mendigo lhes pede dinheiro. De lá, avistam o garoto que limpa vidros de carro no sinal de trânsito e ouvem os fogos de artifÃcio de uma carreata que se aproxima. Então, o sociólogo finalmente se pronuncia:
— Eis o povo!
O quarteto se despede e cada um segue seu rumo.
criado por fook_braga
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