Arriscos

Não sei se sei escrever; apenas arrisco ora linhas cortadas em verso, ora linhas corridas de prosa, mas sempre linhas traçadas às pressas e sem capricho, ou seja, rabiscos. Agora, corro o risco de rabiscar para que todos vejam e (a/re)provem.

11/2/11

Mudança de endereço

Caros amigos

O blogue mudou de endereço. A partir de agora, arrisco-me em http://thiagoliafook.blogspot.com

Do que postei aqui, meia dúzia de textos será resgatada posteriormente em algum livro. Com as necessárias reformas, é claro! O restante não passou de um exercício de estilo e pensamento, mas permanecerá aqui à disposição das escavações de algum arqueológo futuro.

Aguardo-os no novo endereço!

criado por fook_braga    19:00 — Arquivado em: Sem categoria

29/1/11

Alemão: assunto brasileiro

Nas ruas

Mãe e filha têm hora não marcada no salão de beleza: escovinha prevista, bandido imprevisto, bala no peito, morte no ato. Às nove horas da manhã, o homem estaciona: da calçada ao escritório, um revólver e o susto; a morte vem pelo inFARTO. Às nove horas da noite, duas rodas e um coração voltam para casa a toda velocidade: em qualquer esquina, o canivete não hesitará em rasgar o peito e o verbo – mais valem duas pedras de crack na mão que um pai de família voando. A qualquer hora-parte do dia-cidade, alerta: o inimigo por todos os lados. Os passos encadeados, os ferrolhos interditando a rua. Suspense:

— A senhora [preencha a lacuna com o nome da vez] está?

— Saiu…

— Ela voltará hoje?

— Quem viver, verá…

Quem vive, vê: dois garotos passam em frente, discutindo entre si; a certa altura, um pára de revólver na mão e o outro pára de bala na nuca. E quem vê, não vive: na casa dos sonhos, o pesadelo pula o muro ou surge do escuro na garupa de uma moto… “mãos para o alto que ninguém é eterno”… “sorte a sua de só ficar trancado no banheiro”… “se tentar alguma coisa, ela vai se foder”… No dia seguinte, as alternativas: noventa metros quadrados de confinamento ou duzentos metros quadrados de cerca elétrica e arame farpado?

Duas senhoras piedosas, a caminho da igreja. O argumento: rezar ainda é o melhor remédio. O contra-argumento: no sinal, a nem tão Boa Nova – a bolsa ou a vida! A bolsa vai, mas a bala fica. No sétimo dia, a foto estampada no peito, a marcha silenciosa em protesto, a notícia na página principal. Mais um nonúmero para lamentações e relatórios – as extra e os oficiais: a vida está pela hora da morte!

E assim por diante.

Nos bares

Sábado. Vinte e sete de novembro. Dez horas da noite. Um grupo de amigos bate papo regado a chope em torno de uma mesa de bar em alguma cidade brasileira. Comentam o noticiário do dia:

— Vocês estão acompanhando o confronto entre a polícia e os traficantes no Rio de Janeiro? – pergunta um deles.

— Estou vibrando, rapaz! Já passava da hora de os governos tomarem alguma providência! E que seja só o começo! De um morro a outro, do Rio a São Paulo e daí para o país inteiro… – outro deles resume o sentimento da maioria do grupo.

— Mas você não acha que há o risco grave de exageros? O exército subindo os morros… as vidas de moradores inocentes em risco… além das arbitrariedades que devem ser cometidas… – aventura-se uma voz dissonante.

Reação imediata:

— Ah, pelo amor de Deus! Não me venha com esse papo de ter algum tipo de respeito a bandidos! – protesta o primeiro.

— Não se trata de respeito a bandidos, mas a certos direitos que mesmo os criminosos possuem… sem falar nos próprios moradores das favelas… – insiste a voz dissonante.

— Direitos humanos para um traficante de merda, que está por trás da invasão da sua casa ou da morte da minha vizinha?! Tenha paciência! – completa o segundo.

— Eu só quero dizer que é preciso ter cuidado. A situação talvez seja bem mais complicada: os traficantes não estão por trás de todo crime que se comete e por trás dos traficantes deve haver gente bem mais graúda…

— Você sabe de uma coisa? Por mim, a solução seria meter bala em todos esses filhos da puta! Quem sabe até umas bombas em cima das áreas mais complicadas! Que morra um ou outro inocente, tudo bem… é o preço a pagar pela felicidade de todos! – conclui o terceiro.

— Vamos supor que a solução para controlar o tráfico de drogas e a criminalidade que ele alimenta seja a que você propõe. Nesse caso, seria necessário eliminar todos os envolvidos no processo, não é mesmo? Do traficante à sua vizinha que compra um bagulho! Talvez, então, uma bomba no seu edifício…

Os ânimos se acirram, as vozes se elevam e a turma do “deixa disso” entra em cena. Mais uma rodada de chope e a noite segue em frente:

— Quem vai ao show de Maria Gadú na quinta?

Nas academias

Um grupo interdisciplinar de estudos sobre violência urbana e combate ao crime organizado convoca reunião extraordinária para avaliar a conjuntura. Um sociólogo toma a palavra:

— Nossa maior preocupação diante de eventos como esse no Rio de Janeiro é evitar os riscos da euforia. As pessoas sentem-se desprotegidas, portanto facilmente endossam qualquer tipo de política pública de segurança, desde que se mostre eficaz.

Um filósofo intervém:

— O risco maior seria o Estado aproveitar o ensejo do combate ao inimigo para desviar-se das regras do jogo democrático, porém não existe a menor evidência de que a situação venha a degenerar por este caminho. Não vejo, portanto, motivo para preocupações.

Então, um cientista político contra-argumenta:

— Ocorre que o risco não está apenas na hipertrofia da esfera política. É possível que se mantenha o arranjo institucional democrático, mas se ataquem as liberdades fundamentais dos moradores das áreas envolvidas no conflito. Além disso, é sempre oportuno lembrar que o combate ao crime deve ser feito mediante serviço de inteligência e processo penal, não por meio de execução sumária.

Em seguida, um jurista retruca:

— Seremos muito ingênuos se acreditarmos que uma situação excepcional poderá ser resolvida através de medidas institucionalmente enquadradas. As leis penais e as garantias constitucionais nunca foram tão justas neste país; no entanto, o que temos? O que está na ordem do dia é a eficácia das leis, a eficiência das medidas, a garantia de que o Estado punirá o crime e pacificará a sociedade. Às vezes, a guerra mostra-se inevitável como meio para assegurar a paz.

Os olhos se arregalam e o burburinho invade o recinto. Um historiador pede atenção e pondera:

— O discurso não pode girar apenas em torno das liberdades. A princípio, o Estado retirou-se das esferas econômica e ideológica para restringir seu campo de atuação à segurança da vida, da liberdade e da propriedade. Depois, no entanto, outras obrigações surgiram: a educação, a saúde… enfim, a promoção social! Ou seja, é preciso controlar o crime, mas é necessário acima de tudo promover o desenvolvimento para que as pessoas não sejam atraídas para a criminalidade.

Finalmente, o presidente dos trabalhos propõe que o grupo redija uma nota de avaliação da conjuntura para divulgá-la através da imprensa. Um observador argumenta que a medida será inócua:

— Poucos lerão e quem ler certamente não terá poder algum de decisão.

— Em todo caso, não podemos deixar de exercer a crítica publicamente. Estabelecer o contraponto é a nossa função. – insiste um dos presentes.

Os demais concordam. A nota é preparada: aprova o combate à criminalidade, mas pede cautela à população e respeito aos direitos fundamentais pelo Estado. No dia seguinte, ela circula na internet e no primeiro caderno de dois ou três jornais de alcance nacional.

Nas mídias

Uma semana depois, as operações no Rio de Janeiro cedem o espaço das manchetes às notícias mais frescas. As páginas eletrônicas dos jornais ainda alimentam seções especialmente reservadas ao assunto com declarações de autoridades, depoimentos de moradores das áreas em conflito e estatísticas. Em um canal de televisão, um especialista em segurança pública profetiza com palavras poéticas:

— Chegará o dia em que os cordeiros sairão de suas jaulas privadas e os lobos deixarão de reinar sobre os morros, as planícies e o Planalto!

Do lado de cá, um telespectador resmunga entre os dentes do ceticismo e a língua da esperança:

— Quem sobreviver, verá…

(A crônica acima foi submetida a um sítio eletrônico. O assunto esfriou nas manchetes, o texto não foi publicado; portanto, publico-o aqui antes que se perca no meu arquivo.)

criado por fook_braga    17:36 — Arquivado em: Sem categoria

CAIXA BAIXA

Janeiro de 2011. O núcleo literário CAIXA BAIXA surgiu na Paraíba.

Primeiro ato: http://escritosnoonibus.blogspot.com/2011/01/sai-da-frente-que-o-caixa-baixa-chegou.html

Desdobramentos: a ver…

criado por fook_braga    17:31 — Arquivado em: Sem categoria

31/12/10

Feliz A-nov-elho

Postei esse poema aqui há três anos. Devolvo-o, agora, reformado:

Ano Velho! Ano Velho!
Eu não te invejo…

passas às pressas
mas não me deixas
uma só ruga

tu, entretanto
aos trezentos e sessenta e cinco dias de vida
morres decrépito

Vida boa e feliz a todos em dois mil e daí em diante…

criado por fook_braga    10:44 — Arquivado em: Sem categoria

2/12/10

Esboço

Acabo de ler a análise primorosa que Franklin de Matos faz em ‘O Filósofo e o Comediante’ (Editora UFMG, 2001) acerca da estÉtica de Diderot. O livro é uma coletânea de ensaios sobre a literatura e a filosofia da Ilustração[i]. Divide-se em duas partes: na primeira, o autor concentra-se em Diderot; na segunda, aborda outros pensadores do período (Montesquieu, Rousseau, Sade, d’Alembert, Condorcet etc.). Um detalhe afetou-me especialmente; portanto, detenho-me nele.

O leitor há de ter observado que me referi à estÉtica (e não à estética) de Diderot no parágrafo acima. Conforme acentua Franklin, a Ilustração definiu de maneira peculiar o ‘filósofo’, assim como o foram seus instrumentos e espaços de atuação. O filósofo era visto como um intelectual atualizado nos avanços do conhecimento humano e interessado em fazer uso disto para tornar-se útil à sociedade, promovendo o esclarecimento do maior número de pessoas mediante a divulgação da ciência e da filosofia[ii].

Quanto aos instrumentos e lugares de atuação, o período mencionado caracterizou-se por uma nítida diversidade dos meios textuais e da esfera de expressão do pensamento. Os filósofos não se manifestavam apenas por meio de conceitos em ensaios ou tratados filosóficos nem reduziam sua intervenção ao mero debate especulativo entre especialistas. Ao contrário, eles se valiam dos gêneros literários (conto, romance, diálogo, drama, carta, verbete etc.) e levantavam suas discussões na esfera pública: os salões, os cafés, os teatros eram seu lugar preferencial em vez de círculos acadêmicos restritos.

Enfim, embora as artes tenham preservado sua independência no campo da Estética, elas foram incorporadas a um projeto Ético: fazia parte do modo de ser do pensador a consciência de sua função social e, uma vez que era preciso falar ao público e ser compreendido por ele, a sisudez racional do ensaio filosófico era descabida; por isso, fazia-se necessário atingir a sensibilidade das pessoas por meio do teatro e da literatura. Era deste ideal que estava imbuído Diderot ao propor a reforma da dramaturgia francesa.

Os detalhes do pensamento de Diderot não interessam ao propósito destas linhas. Valho-me do pretexto para dizer que essa definição do filósofo e a respectiva colaboração entre arte e filosofia agradam-me, pois correspondem aos sentimentos que me animam enquanto escritor: dedico-me à criação literária e penso que um enredo ou uma metáfora sugerem melhor as sinuosidades e as lacunas do espírito humano do que a linearidade de uma argumentação lógica.

Aliás, referi-me vagamente a essa propriedade da literatura nos versos finais de ‘pedra dos pireneus’, poema que integra meu livro recém-lançado (‘poesia natimorta e versos sobreviventes’):

nada diz

só entorta

a tentativa

matemática

de impor

ao caos

a lógica

Ocorre que uma limitação conjuntural promete algum embaraço a que se leve adiante em nossa época uma ética intelectual à moda da Ilustração. Tal limitação parece-me adequadamente identificada por Foucault, na ‘Microfísica do Poder’ (Graal, 2010, p. 10s):

Pode-se supor que o intelectual universal, tal como funcionou no século XIX e no começo do século XX, derivou de fato de uma figura histórica bem particular: o homem de justiça, o homem da lei, aquele que opõe a universalidade da justiça e da eqüidade de uma lei ideal ao poder, ao despotismo, ao abuso, à arrogância da riqueza. (…) Admitamos, com o desenvolvimento das estruturas técnico-científicas na sociedade contemporânea, a importância adquirida pelo intelectual específico há algumas dezenas de anos e a aceleração deste movimento desde 1920.

Em outras palavras, a limitação parece ser a seguinte: os intelectuais da Ilustração não eram, em regra, profissionais ligados a algum saber específico e a própria especificação dos saberes ainda não se dera ou estava em curso; portanto, era-lhes possível a manifestação sobre qualquer assunto, através de variadas formas de expressão do pensamento. Já o intelectual contemporâneo atua profissionalmente em algum campo específico do conhecimento (ele é físico teórico, historiador das idéias, teórico da literatura, juiz de direito, médico sanitarista etc.) e é castrado por uma teia discursiva que atribui a cada um o que pode ser dito, como pode ser dito, onde pode ser dito e quando pode ser dito.

Diante dessa dificuldade, não posso deixar de pensar na advertência de Eric Hobsbawm: cuidemos do específico para atender às exigências curriculares, mas tratemos em seguida do panorama para não perder a visão de conjunto. As palavras de Hobsbawm sugerem a conciliação entre o intelectual específico (que atende pragmaticamente aos requisitos do seu âmbito profissional) e o universal (que vai além das exigências e resgata o espírito da Ilustração). Penso que dois detalhes de nosso tempo podem ser explorados para viabilizar essa concordância.

Em primeiro lugar, lembremos que os philosophes franceses falaram, sobretudo, a partir de dois lugares: os salões e os teatros. Esses ambientes não eram departamentos universitários nem associações profissionais, mas espaços públicos freqüentados por homens e mulheres advindos de situações em certo sentido heterogêneas. Se pensarmos nos lugares semelhantes do nosso tempo, facilmente descobriremos os salões digitais (redes sociais da internet, sítios eletrônicos, blogues etc.) e os meios de comunicação que se sobrepuseram ao teatro como veículos de entretenimento, a começar da televisão e do cinema com seus gêneros (novelas, seriados, documentários etc.).

Diderot denunciou a redução da dramaturgia francesa de seu tempo à função de meramente divertir e propôs a reforma do teatro para resgatar a dimensão educadora que ele tivera entre os gregos antigos: despertar o amor à virtude e a aversão ao vício[iii]. A avidez com que nossos contemporâneos acorrem aos livros de auto-ajuda e aos novos templos serve como indicativo de que há espaço para inserir nos meios de comunicação alguma preocupação esclarecedora, o que, aliás, depende de uma crítica aos aspectos midiático-industriais dos próprios meios de comunicação.

Além disso, a proliferação das redes sociais e das páginas pessoais na internet é sinal ainda pouco explorado do desejo de comunicação que as alimenta. Penso que esses salões da nossa era podem ser mais bem aproveitados, desde que seu potencial de troca de experiências e idéias seja direcionado para a constituição de uma esfera onde as pessoas também dialoguem sobre questões de relevância pública ao invés de meramente trocarem intimidades.

Em segundo lugar, o resgate do filósofo iluminista pode valer-se das demandas de transdisciplinaridade que se avolumam nos meios acadêmicos e ainda não encontraram respostas satisfatórias. Aliás, o referido resgate pode até mesmo funcionar como catalisador dessas demandas. Tudo isso envolve a reconfiguração dos departamentos universitários e das grades curriculares, ainda muito compartimentados e isolados entre si, bem como a redefinição pelos órgãos oficiais de educação dos critérios de avaliação dos cursos e das carreiras.

Aqui, é necessário fazer duas ressalvas. Convocar ciência, filosofia e arte para que colaborem entre si implica o risco de perder-se de vista que cada uma dessas formas de conhecimento possui especificidades que, se desrespeitadas, colocarão em xeque sua própria autoridade enquanto produtoras de pretensões de verdade, coerência ou beleza. Assim, a ciência não pode abdicar do rigor metodológico e a filosofia não precisa descuidar do conceito, mas ambas podem divulgar os resultados de suas investigações ao grande público mediante as formas literárias, cinematográficas e televisivas.

Colocada nesses termos, a referida colaboração pode tornar-se viável no âmbito das Universidades através dos projetos de extensão e, dentro destes, pelo uso de um expediente pouco comum, particularmente no Brasil: a divulgação científica e, mais ainda, dos saberes sobre o homem. Ofereço um exemplo da realidade a partir da qual escrevo: a Paraíba possui três faculdades públicas de História, as quais produzem continuamente certo universo de conhecimentos acerca do próprio Estado; entretanto, os paraibanos em geral falam de si mesmos como um povo sem História.

O leitor criterioso há de ter percebido que até aqui expus apenas um esboço de reflexões e pretensões. Levá-las adiante, transformando-as em projeto de ação, exige não apenas a consciência das dificuldades conjunturais acima elencadas, mas também o cuidado contra os riscos que toda formulação de projeto implica: ignorar os erros dos que já levaram em frente idéias semelhantes e resvalar na confiança excessiva, que desconsidera limites, ignora divergências e se encaminha para o fundamentalismo.

Contra esses riscos, vale a proposta de Rouanet de um novo Iluminismo, consciente 1) da contingência dos seus resultados, 2) da necessidade de controle da própria ciência para que ela não se transforme em técnica a serviço da dominação, 3) dos mecanismos sociais e psíquicos mais profundos onde se manifestam o poder e a irracionalidade, 4) dos direitos humanos como valores fundamentais e 4) da urgência de estabelecer uma ética de compromisso entre a liberação das paixões e o consenso racional. Enfim, os desafios são assustadores, mas o ânimo está aceso. Avante!


[i] Há grande confusão em torno do uso dos termos ‘iluminismo’, ’Ilustração’ e ‘esclarecimento’. Particularmente, valho-me de acepções que, em certa medida, remontam a ‘As Razões do Iluminismo’, de Sérgio Paulo Rouanet . Assim, por Ilustração entendo o período histórico que corresponde à atuação de determinados intelectuais entre os séculos XVII e XVIII; por iluminismo compreendo o conjunto do que há de comum nos ideais propostos por esses intelectuais; por esclarecimento entendo o objetivo específico destes ideais, tal como fixado por Kant – a maioridade intelectual de cada indivíduo.

[ii] Síntese deste ideal iluminista foi a célebre conferência de Kant ‘O que é o esclarecimento?’: o esclarecimento consiste em o indivíduo pensar por conta própria, sem estar preso ao argumento da autoridade ou à superstição do costume; o meio de realização do esclarecimento é o uso livre e público da razão por parte dos intelectuais.

[iii] É preciso lembrar sempre que virtude e vício tinham para os gregos antigos um significado muito diverso daquele transmitido a nós pelo cristianismo. Desta diversidade, destaco que certa versão do cristianismo considera virtuosa a pessoa que reprime suas paixões (Ex.: Epístola de São Tiago 4,1), enquanto Aristóteles tem como virtuosa a pessoa que as conduz ao equilíbrio (ver Livro II da Ética a Nicômaco). Particularmente, fui fortemente influenciado pela ética cristã nos anos de minha formação; no entanto, tenho formulado recentemente uma ética laica que deve muito a Aristóteles (o meio termo) e Hume (a beleza moral, que concilia razão e sentimento).

criado por fook_braga    12:02 — Arquivado em: Sem categoria

22/10/10

Dicionário político: seis verbetes

Depois de tanto tempo, uma arte se esboça, e são necessários milhares de séculos para aperfeiçoá-la.

(Política, ‘Dicionário Filosófico’, Voltaire)

1. Povo

Quatro amigos conversam em uma cafeteria do Boulevard. São intelectuais: um historiador, um jurista, um sociólogo e um filósofo político. A discussão entre eles é mais acalorada que a fumaça dos cafés escapando das xícaras. A certa altura, o jurista toma a palavra:

— É como digo, a Constituição determina que todo o poder emana do povo. Então, eu pergunto: o que é o povo? E respondo: o povo não é mais que uma noção vaga. É preciso determiná-la!

— E quem irá determiná-la? O Supremo Tribunal Federal? – pergunta o historiador.

— Também ele, por que não? Aliás, sobretudo ele!

— Isso quer dizer que continuaremos no empate… – sorri o historiador.

— Se não for o Supremo, quem será? – insiste o jurista. Então, o filósofo intervém:

— Na verdade, é preciso definir o conceito. Investigá-lo, firmá-lo, persegui-lo. O que é o povo? O povo, eu digo, é uma abstração, um conceito da filosofia política. O que temos aí fora é uma massa de indivíduos, cada qual vivendo sua vida bem ou mal. O povo? É preciso perguntar à Razão!

— Então, você nega a história! – reage, com espanto, o jurista. O que me diz de Atenas? Do Conselho dos 500? E da Assembléia de todos os cidadãos, iguais perante a lei e com igual direito à palavra? Isso é a Razão ou é o povo na História?

— O que a História revela não é aparente! – atalha o historiador. O povo de Atenas foi resultado das reformas de Clístenes. O povo fez a Revolução Francesa? Até certo ponto, talvez… Mas foi Napoleão III quem começou a democracia na França! E o caso alemão? Foi Bismarck, e não o povo, quem implantou o regime liberal!

— Então, vocês querem dizer que o povo é obra de filósofos ou governantes?!

— Eu quis dizer o que você próprio sugeriu agora há pouco: se o povo é uma noção vaga e precisamos determiná-la, devemos fazer isso racionalmente. – defende-se o filósofo.

— Quero dizer que o povo existe, mas o seu conteúdo deve ser apreendido na História. O povo de Atenas não é o mesmo de que fala Rousseau e este, por sua vez, não é o povo para o qual se apela nos guias eleitorais! – acrescenta o historiador.

— Afinal, de que povo nós falamos? – indaga o jurista.

Os demais trocam sorrisos. Os quatro pagam a conta e saem. Passam por amigos que batem papo na praça de alimentação, casais de namorados que saem do cinema, crianças que brincam no Game Station, homens e mulheres que param diante das vitrinas. Na calçada, um mendigo lhes pede dinheiro. De lá, avistam o garoto que limpa vidros de carro no sinal de trânsito e ouvem os fogos de artifício de uma carreata que se aproxima. Então, o sociólogo finalmente se pronuncia:

— Eis o povo!

O quarteto se despede e cada um segue seu rumo.

criado por fook_braga    20:53 — Arquivado em: Sem categoria

2. Opinião pública

Manhã de sábado. Em pleno calor de outubro, especialistas de todas as bancas reúnem-se no Calçadão para o encontro habitual.

— É como digo, a política de hoje não é mais como a de ontem. Antigamente, havia decência. Agora, cada qual só está interessado no próprio bolso! – alguém afirma com propriedade.

Logo em seguida, outro contesta:

— Pois eu afirmo que não há tempo melhor que o nosso. Antigamente, a corja roubava e ninguém descobria nem investigava. Roubava-se até com mais desembaraço. Hoje, não! Nós temos o Ministério Público e a liberdade de imprensa! Nada fica encoberto! Tudo se transforma em escândalo!

Dois ou três meneiam a cabeça, em sinal de aprovação. O contestado vai à réplica:

— Ora, imprensa! Você sabe tanto quanto eu que os jornais tomam partido de quem lhes dá mais vantagem. Quando revelam um caso aqui, encobrem outro acolá! Escândalo? A própria imprensa é um escândalo! E com uma agravante: não há quem possa investigá-la ou detê-la!

Um terceiro intervém, espantado:

— Então, você está contra a liberdade de imprensa?! Logo se vê com quem vota!

— Não foi isso o que eu disse! – o outro protesta.

— Mas eu digo uma coisa – atalha um quarto – já é tempo de as Forças Armadas tomaram uma providência. O quadro atual é muito pior que o de 1964! Corrupção generalizada, partidos venais, desrespeito às instituições democráticas… Os subversivos de ontem são os governantes de hoje!

Dois ou três meneiam a cabeça em sinal de aprovação. Ouve-se o protesto:

— Não diga uma bobagem dessas! Onde já se viu? Um golpe militar em favor da democracia?!

— Era exatamente essa a intenção de Castelo Branco!

— Mas ele não contava com Costa e Silva…

Duas pessoas se aproximam do grupo. Um deles intervém no debate:

— Sem a imprensa livre, não há opinião pública!

— E sem opinião pública, não há democracia!

— Opinião pública?! Ora bolas! Não há nada mais volúvel do que a opinião pública!

— Seu senador de merda! – protesta o amigo ao lado.

O outro inflama o rosto, engrossa a voz e revida:

— De merda? Eu?! Diga cá uma coisa: quem foi que mudou o voto do primeiro para o segundo turno, hein? Se não fui eu, quem terá sido?!

O amigo enrubesce e cala.

— O voto de um indivíduo ainda não é a opinião pública!

— E o que é a opinião pública?

No mesmo instante, fogos de artifício irrompem no céu e o barulho de um carro de som se avizinha.

— É a passeata chegando! – alerta alguém.

E todos se põem na direção ao ruído.

criado por fook_braga    20:51 — Arquivado em: Sem categoria

3. Separação de poderes

De manhã cedo, na porta do apartamento:

— A caneta é minha!

— O martelo é meu!

Ao meio dia, durante o almoço:

— Já ocupamos os quatro lados da praça! O que faremos para conseguir as antenas que faltam?

— Por que não oferecer um jantar? Vou caprichar no cardápio!

— Bem pensado! Vou pôr um anúncio no jornal!

À noite, comendo uma pizza:

— Os condôminos da outra torre ainda resistem a me apoiar para síndico…

— Se você quiser, posso chamá-los para uma conversa.

— Não… não… é melhor chamar logo a polícia!

Enfim, chega o sono:

— Não puxe todo o lençol para você!

— Deixe de reclamar e desligue a televisão que eu preciso dormir!

— Pai nosso, que estais no céu… – os dois rezam juntinhos.

criado por fook_braga    20:49 — Arquivado em: Sem categoria

4. Apoio político

Dia de feira livre. A cidadezinha se concentra nas ruelas do mercado. Um carro com placa da capital estaciona no largo da matriz, dois homens saltam e atravessam a feira discretamente. Um candidato discursa diante do fórum:

— O povo sabe que eu fui o melhor prefeito desta cidade! Agora, com a ajuda do povo, eu irei para a Assembléia Legislativa! Chegou minha vez de retribuir o voto trabalhando na capital pelo povo!

Segue-se uma salva de palmas e gritos de apoio. Em meio ao clamor, uma voz estridente se destaca:

— É mentira! É mentira! O povo não é tolo e sabe que nenhum prefeito desviou mais recursos do que esse cretino! O dinheiro da merenda, o dinheiro do posto de saúde, o dinheiro do transporte, foi com esse dinheiro que ele comprou carro, casa e gado! É com esse dinheiro que ele passeia na capital todo fim de semana!

A discussão se instala. Os debatedores atracam-se verbalmente e suas vozes se confundem na mistura de vaias e vivas que engole o ambiente. Os dois homens que desceram do carro seguem adiante, entram no prédio onde o mercado funciona durante a semana e tomam a escada em direção ao primeiro andar. Lá em cima, outro homem aguarda sua chegada. Os três entram em uma salinha apertada, sentam-se à mesa e conversam:

— Trouxeram a tabela?

Um dos visitantes responde, secamente:

— Os preços estão mantidos. Dez mil para cada peão, cinqüenta mil para o vaqueiro.

— Assim fica impossível! Os homens já ficaram sabendo por aí que o mercado anda inflacionado…

O outro visitante explica:

— Não é bem isso. O preço varia conforme o tamanho do curral. Aqui, o lucro é pequeno. O investimento tem que ser proporcional, senão o orçamento não fecha. – fala com calma.

O anfitrião deixa em aberto:

— Vou ter que falar com o pessoal. Estão dizendo que o concorrente oferece condições mais atrativas…

Os três de despedem e combinam o retorno.

criado por fook_braga    20:47 — Arquivado em: Sem categoria

5. Propaganda eleitoral

Dois irmãos disputam espaço na sala de estar:

— Agora, é minha vez de ficar com o controle!

— Mas você já ficou a semana inteira!

— Passe logo essa coisa, se não eu arranco na marra!

Os irmãos cansam da televisão e saem à rua para brincar:

— Você é feio, nanico e dentuço!

— Você é aleijado, magro e careca!

Na volta para casa:

— Mãe, ele disse que eu sou feio, nanico e dentuço!

— Menino, peça desculpa a seu irmão ou eu corto a mesada!

— Mas ele disse que eu sou aleijado, magro e careca!

— Menino, peça desculpa a seu irmão ou fica sem tevê por um dia!

criado por fook_braga    20:45 — Arquivado em: Sem categoria
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