Nas ruas
Mãe e filha têm hora não marcada no salão de beleza: escovinha prevista, bandido imprevisto, bala no peito, morte no ato. Às nove horas da manhã, o homem estaciona: da calçada ao escritório, um revólver e o susto; a morte vem pelo inFARTO. Às nove horas da noite, duas rodas e um coração voltam para casa a toda velocidade: em qualquer esquina, o canivete não hesitará em rasgar o peito e o verbo – mais valem duas pedras de crack na mão que um pai de família voando. A qualquer hora-parte do dia-cidade, alerta: o inimigo por todos os lados. Os passos encadeados, os ferrolhos interditando a rua. Suspense:
— A senhora [preencha a lacuna com o nome da vez] está?
— Saiu…
— Ela voltará hoje?
— Quem viver, verá…
Quem vive, vê: dois garotos passam em frente, discutindo entre si; a certa altura, um pára de revólver na mão e o outro pára de bala na nuca. E quem vê, não vive: na casa dos sonhos, o pesadelo pula o muro ou surge do escuro na garupa de uma moto… “mãos para o alto que ninguém é eterno”… “sorte a sua de só ficar trancado no banheiro”… “se tentar alguma coisa, ela vai se foder”… No dia seguinte, as alternativas: noventa metros quadrados de confinamento ou duzentos metros quadrados de cerca elétrica e arame farpado?
Duas senhoras piedosas, a caminho da igreja. O argumento: rezar ainda é o melhor remédio. O contra-argumento: no sinal, a nem tão Boa Nova – a bolsa ou a vida! A bolsa vai, mas a bala fica. No sétimo dia, a foto estampada no peito, a marcha silenciosa em protesto, a notícia na página principal. Mais um nonúmero para lamentações e relatórios – as extra e os oficiais: a vida está pela hora da morte!
E assim por diante.
Nos bares
Sábado. Vinte e sete de novembro. Dez horas da noite. Um grupo de amigos bate papo regado a chope em torno de uma mesa de bar em alguma cidade brasileira. Comentam o noticiário do dia:
— Vocês estão acompanhando o confronto entre a polícia e os traficantes no Rio de Janeiro? – pergunta um deles.
— Estou vibrando, rapaz! Já passava da hora de os governos tomarem alguma providência! E que seja só o começo! De um morro a outro, do Rio a São Paulo e daí para o país inteiro… – outro deles resume o sentimento da maioria do grupo.
— Mas você não acha que há o risco grave de exageros? O exército subindo os morros… as vidas de moradores inocentes em risco… além das arbitrariedades que devem ser cometidas… – aventura-se uma voz dissonante.
Reação imediata:
— Ah, pelo amor de Deus! Não me venha com esse papo de ter algum tipo de respeito a bandidos! – protesta o primeiro.
— Não se trata de respeito a bandidos, mas a certos direitos que mesmo os criminosos possuem… sem falar nos próprios moradores das favelas… – insiste a voz dissonante.
— Direitos humanos para um traficante de merda, que está por trás da invasão da sua casa ou da morte da minha vizinha?! Tenha paciência! – completa o segundo.
— Eu só quero dizer que é preciso ter cuidado. A situação talvez seja bem mais complicada: os traficantes não estão por trás de todo crime que se comete e por trás dos traficantes deve haver gente bem mais graúda…
— Você sabe de uma coisa? Por mim, a solução seria meter bala em todos esses filhos da puta! Quem sabe até umas bombas em cima das áreas mais complicadas! Que morra um ou outro inocente, tudo bem… é o preço a pagar pela felicidade de todos! – conclui o terceiro.
— Vamos supor que a solução para controlar o tráfico de drogas e a criminalidade que ele alimenta seja a que você propõe. Nesse caso, seria necessário eliminar todos os envolvidos no processo, não é mesmo? Do traficante à sua vizinha que compra um bagulho! Talvez, então, uma bomba no seu edifício…
Os ânimos se acirram, as vozes se elevam e a turma do “deixa disso” entra em cena. Mais uma rodada de chope e a noite segue em frente:
— Quem vai ao show de Maria Gadú na quinta?
Nas academias
Um grupo interdisciplinar de estudos sobre violência urbana e combate ao crime organizado convoca reunião extraordinária para avaliar a conjuntura. Um sociólogo toma a palavra:
— Nossa maior preocupação diante de eventos como esse no Rio de Janeiro é evitar os riscos da euforia. As pessoas sentem-se desprotegidas, portanto facilmente endossam qualquer tipo de política pública de segurança, desde que se mostre eficaz.
Um filósofo intervém:
— O risco maior seria o Estado aproveitar o ensejo do combate ao inimigo para desviar-se das regras do jogo democrático, porém não existe a menor evidência de que a situação venha a degenerar por este caminho. Não vejo, portanto, motivo para preocupações.
Então, um cientista político contra-argumenta:
— Ocorre que o risco não está apenas na hipertrofia da esfera política. É possível que se mantenha o arranjo institucional democrático, mas se ataquem as liberdades fundamentais dos moradores das áreas envolvidas no conflito. Além disso, é sempre oportuno lembrar que o combate ao crime deve ser feito mediante serviço de inteligência e processo penal, não por meio de execução sumária.
Em seguida, um jurista retruca:
— Seremos muito ingênuos se acreditarmos que uma situação excepcional poderá ser resolvida através de medidas institucionalmente enquadradas. As leis penais e as garantias constitucionais nunca foram tão justas neste país; no entanto, o que temos? O que está na ordem do dia é a eficácia das leis, a eficiência das medidas, a garantia de que o Estado punirá o crime e pacificará a sociedade. Às vezes, a guerra mostra-se inevitável como meio para assegurar a paz.
Os olhos se arregalam e o burburinho invade o recinto. Um historiador pede atenção e pondera:
— O discurso não pode girar apenas em torno das liberdades. A princípio, o Estado retirou-se das esferas econômica e ideológica para restringir seu campo de atuação à segurança da vida, da liberdade e da propriedade. Depois, no entanto, outras obrigações surgiram: a educação, a saúde… enfim, a promoção social! Ou seja, é preciso controlar o crime, mas é necessário acima de tudo promover o desenvolvimento para que as pessoas não sejam atraídas para a criminalidade.
Finalmente, o presidente dos trabalhos propõe que o grupo redija uma nota de avaliação da conjuntura para divulgá-la através da imprensa. Um observador argumenta que a medida será inócua:
— Poucos lerão e quem ler certamente não terá poder algum de decisão.
— Em todo caso, não podemos deixar de exercer a crítica publicamente. Estabelecer o contraponto é a nossa função. – insiste um dos presentes.
Os demais concordam. A nota é preparada: aprova o combate à criminalidade, mas pede cautela à população e respeito aos direitos fundamentais pelo Estado. No dia seguinte, ela circula na internet e no primeiro caderno de dois ou três jornais de alcance nacional.
Nas mídias
Uma semana depois, as operações no Rio de Janeiro cedem o espaço das manchetes às notícias mais frescas. As páginas eletrônicas dos jornais ainda alimentam seções especialmente reservadas ao assunto com declarações de autoridades, depoimentos de moradores das áreas em conflito e estatísticas. Em um canal de televisão, um especialista em segurança pública profetiza com palavras poéticas:
— Chegará o dia em que os cordeiros sairão de suas jaulas privadas e os lobos deixarão de reinar sobre os morros, as planícies e o Planalto!
Do lado de cá, um telespectador resmunga entre os dentes do ceticismo e a língua da esperança:
— Quem sobreviver, verá…
(A crônica acima foi submetida a um sítio eletrônico. O assunto esfriou nas manchetes, o texto não foi publicado; portanto, publico-o aqui antes que se perca no meu arquivo.)